Camara pi 183

Clipe da Anitta sobre Candomblé gera debate sobre intolerância religiosa

Por RJNEWS em 19/05/2024 às 07:44:43
Após a divulgação, artista perdeu mais de 200 mil seguidores nas redes sociais

Após a divulgação, artista perdeu mais de 200 mil seguidores nas redes sociais

A cantora Anitta lançou, nesta terça-feira (14), o clipe da música 'Aceita', onde celebra sua fé e conexão com o Candomblé, religião de matriz africana. No entanto, o que deveria ser um momento de celebração e expressão cultural se transformou em uma onda de intolerância religiosa, com a artista enfrentando duras críticas.

Desde o anúncio do projeto, Anitta tem compartilhado fotos e vídeos mostrando sua relação com o Candomblé, revelando sua iniciação na religião e participação ativa no terreiro. No entanto, em menos de duas horas após a divulgação das primeiras imagens, a cantora perdeu mais de 200 mil seguidores em suas redes sociais, enquanto recebia uma enxurrada de comentários preconceituosos e mensagens de ódio.

O lançamento do videoclipe gerou um interesse pelo termo "candomblé", que disparou nas buscas do Google, tornando-se o 15º assunto mais buscado na última segunda-feira (14). Diante da escalada de agressões virtuais, Anitta decidiu se pronunciar publicamente na tarde desta quarta-feira (15), destacando a importância da liberdade religiosa e repudiando qualquer forma de preconceito e discriminação.

"Eu já falei da minha religião inúmeras vezes, mas parece que deixar um trabalho artístico para sempre no meu catálogo foi demais para quem não ACEITA que o outro pense diferente. Eu acredito que as religiões são rios que desembocam num mesmo lugar: Deus, a inteligência suprema. Eu não acredito no céu e no inferno, não acredito no diabo... acredito que todos nós temos o poder de manifestar em nós o divino e o diabólico. Quando recebo mensagens de repúdio e intolerância religiosa, não sinto energia divina sendo emanada em minha direção, sinto a energia contrária. Eu tenho fé, não tenho medo", disse a artista.

Em outra publicação para os seguidores nas redes sociais, ela desabafou: "Eu ainda fico um pouco assustada com a falta de evolução do ser humano, né? Nos dias de hoje, ainda é um retrocesso tão grande nesse sentido de aceitar, de respeitar os caminhos das pessoas. Como vai passando o tempo, o ser humano está mais intolerante ao invés de estar se aceitando mais, se respeitando mais e está o oposto".

A cantora também ressaltou a importância de combater a intolerância religiosa. "Para todas as pessoas que pararam de seguir ou que comentaram na minha foto com repúdio, eu acho importante manter lá para as pessoas verem que existe, que está aí, precisa ser combatido. Combatido com amor, não com raiva, nada disso", afirmou.

O enfrentamento fomentou um debate mais amplo sobre o tema, onde casos de intolerância têm sido cada vez mais frequentes. No dia 1º deste mês, um terreiro de umbanda foi denunciado pelo "barulho" no momento em que acontecia um ritual religioso no Templo a Caminho da Paz, na Zona Norte do Rio. Além disso, de acordo com os relatos dos responsáveis pelo templo, também foram arremessadas frutas congeladas contra os umbandistas e os ataques acontecem desde setembro do ano passado.

"Na minha opinião, em 2024 nós não podemos mais permitir que alguém nos aponte o dedo e diga que a nossa fé está incomodando. Porque nós respeitamos todas as religiões e suas formas de manifestações. Então estamos pedindo o mesmo. Não queremos ser tolerados, nós queremos ser respeitados!", ressalta a dirigente de Umbanda, Cristina Ferreira.
"A maneira de lidar com isso é fazer nossa religião ser respeitada como todas as demais! Todos precisam reagir para que ninguém mais venha passar por isso. A intolerância religiosa constrange e oprime os cidadãos de bem que apenas vêm buscar um acolhimento espiritual", disse a líder do templo.


A ocorrência foi registrada na 20ª DP (Vila Isabel). Segundo a Polícia Civil, o caso foi encaminhado para a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), que vai prosseguir com a investigação.
Já a baiana de acarajé Rosa Perdigão, 36 anos, que tem um tabuleiro de comida baiana, o Cheirinho de Dendê, também já sofreu com o preconceito. "Andar de torço na cabeça ou um fio de conta no pescoço é motivo de intolerância sempre, mas no ano de 2020, eu fazia entregas em uma campanha de Dia das Mães, quando uma pessoa fez questão de escrever em vários grupos de consumidores que eu fazia comida de 'macumba' e que eu rezava antes de vender os acarajés. Isso me fez realizar uma denuncia, com um registro de ocorrência e pedir uma medida para aquelas palavras duras escritas em várias páginas", desabafou.
Rio lidera casos de intolerância religiosa no país
Publicidade
De acordo com o levantamento da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), o Rio de Janeiro ocupou as primeiras posições em denúncias de violação à liberdade religiosa nos anos de 2022 e 2023, destacando a urgência de medidas efetivas para combater esse tipo de discriminação. Entre as ocorrências registradas pelo Disque 100, cerca de 117 foram no Rio, seguido por São Paulo, com 78 denúncias, e Bahia, com 47.

"A intolerância tem a ver com ódio, o conceito de discriminação que se tem com relação à cultura material e espiritual do descendente de africano e, consequentemente, se esbarra na visão ocidental racista que se tem do que é diferente. É um segmento muito forte, que tem um projeto econômico, político, social e cultural de poder na sociedade brasileira que acha que é a única, a verdade é absoluta.

Na verdade, existem vários caminhos, existem muitos caminhos para chegar ao Criador. Em um momento como esse, temos que nos solidarizar, combater essas atitudes e continuar o diálogo com aqueles que querem dialogar. Quem quer dialogar, vai dialogar. A gente tem que observar essa intolerância, ela surge na família e às vezes, em algumas escolas dominicais e não são todas, mas em algumas igrejas que na verdade incentivam esse tipo de visão religiosa preconceituosa com relação às culturas que não são ocidentais", afirma babalaô Ivanir dos Santos, doutor em história e fundador do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap).

"Quando você tem um artista ou até mesmo um jogador de futebol que reverencia os seus orixás, aí eles são endemoniados com essa visão de boa e má religião. Por outro lado, nós não podemos aceitar isso de forma passiva. Porque a intolerância religiosa no Brasil é um crime. Do outro lado, é muito importante ver a atitude corajosa da Anitta, e o clipe, que é o que me parece, trata da diversidade religiosa, que fala da paz, do diálogo entre vários grupos religiosos. Intolerância é crime. Um dos caminhos para se combater é identificar e que as autoridades públicas investiguem e uma vez comprovada, as pessoas respondam pelos seus atos. Por outro lado, tem que tomar uma medida de educação porque isso reflete um pensamento também de algumas lideranças.

Não é uma coisa isolada. Como dizia Nelson Mandela, 'Ninguém nasce odiando. Se ensina a odiar, se ensina a amar'. Então, tem que ter uma ampla discussão sobre o tema e também como se pode educar as pessoas e investir nessa direção. Somos um grupo que não ataca ninguém, somos acolhedores e vamos continuar sendo acolhedores, acreditando no diálogo", ressaltou o babalaô.

Para a secretária executiva adjunta do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), Mariana Gino, 36 anos, a intolerância religiosa é uma mácula na sociedade brasileira que está inserida na sociedade, e assim como o racismo, é um problema social, político, econômico, cultural e espiritual em nossa sociedade.

"As principais causas de intolerância religiosa, para além da desinformação e desconhecimento, é essa construção de uma ideia de superioridade. Se coloca superior em relação a outra religião e também em relação à própria formação do indivíduo. A educação é a base para transformar a sociedade. Por isso, a promoção da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o estudo da História e da Cultura Africana e afro-brasileira, é fundamental para que possamos pensar a diversidade religiosa e cultura brasileira", afirma a professora.

"Precisamos ter uma ação efetiva", reforça Gino. Ela também acredita na promoção de políticas de inclusão, respeito, diversidade e tolerância e do Plano Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

Veja as 10 cidades com mais casos de intolerância religiosa no país
1º - Rio de Janeiro (RJ) - 117 casos
2º - São Paulo (SP) - 78
3º - Salvador (BA) - 47
4º - Brasília (DF) - 19
5º - Nova Russa (CE) - 15
6º - Belo Horizonte (MG) - 13
7º - Gravata (RS) - 12
8º - Fortaleza (CE) - 10
9º - Duque de Caxias (RJ) - 10
10º - Campinas (SP) - 9

Fonte: O Dia

Comunicar erro

Comentários

Zion
Luxhoki